Cidade 'engoliu' aeroporto
03.Apr.2009 10:32
Para especialistas, estão aí as causas do acidente
GILBERTO AMENDOLA, Jornal da Tarde - quinta-feira, 19 de julho de 2007
Postos de gasolina não derrubam aviões, mas a presença de nove deles a menos de 1 km da cabeceira da pista do Aeroporto de Congonhas, nas Avenidas Washington Luís, Rubem Berta e Bandeirantes, é um sinal de que há algo errado por lá. Logo após a tragédia de anteontem, urbanistas acirraram o debate sobre um difícil dilema: ou a Cidade desiste de 'engolir' o aeroporto ou o aeroporto 'desiste' da Cidade. Quem vai desistir primeiro?
Na foto do dia 12 de abril de 1936, data do início das operações do Aeroporto de Congonhas, não se vê quase nada. A Cidade tinha apenas 1 milhão de habitantes - e áreas como essa eram praticamente desabitadas. Incrível que, em 71 anos, aquele mesmo descampado tenha se transformado no que é hoje. 'É uma tragédia travestida de modernização. Todos são culpados: Infraero, companhias aéreas, passageiros, governos...', desabafa Regina Monteiro, diretora da Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) e conselheira da ONG Defenda São Paulo.
Ainda com as imagens da tragédia na cabeça, o urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano, acredita que a Cidade vai precisar pensar em um 'desadensamento' populacional. 'A comparação pode não ser a mais adequada, mas, da mesma forma que as pessoas estão sendo retiradas das áreas de mananciais, elas precisariam ser tiradas das proximidades do aeroporto', afirmou.
Kazuo ainda toca em outra ferida. 'Acidentes como esse mostram que nós falhamos. São Paulo está envelhecendo e a manutenção dos nossos equipamentos públicos deixa muito a desejar.' O urbanista compara a cratera do Metrô (de janeiro) com o acidente de ontem. 'Os dois mostram um tipo de falência, uma falta de cuidado com a Cidade. Um descuido que sempre termina em tragédia.'
Também do Instituto Pólis, o urbanista Renato Cymbalista acredita que Congonhas precisa ser repensado. 'Pela sua localização, ele não tem vocação para receber grandes aeronaves. Ele deveria receber aviões menores, como acontece em muitos aeroportos do interior de São Paulo.'
Nenhum dos urbanistas ouvidos é a favor da desativação de Congonhas. Razões econômicas, culturais e de logística segurariam o aeroporto em Moema. Ainda assim, segundo os urbanistas, seu 'gigantismo' precisa ser freado - assim como o crescimento em torno dele. 'A Cidade precisa de um aeroporto, mas não do jeito que está hoje. Vivemos em uma situação de alto risco', disse Kazuo.
Mas, depois de um acidente como o de anteontem, é possível acreditar na solução desse dilema envolvendo o crescimento do aeroporto e o avanço da Cidade sobre ele? Regina Monteiro, diretora da Emurb é lacônica: 'Não.'
Serra defende a redução dos vôos
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB) afirmou, ontem à tarde, que vai pedir a redução do volume de vôos no Aeroporto de Congonhas. Durante vistoria aos trabalhos de resgate, ele classificou o aeroporto de 'inadequado' para a Cidade por conta de sua localização perto de bairros populosos.
'Num curto prazo precisamos adequar o tráfego aéreo de Congonhas à sua capacidade real. Não pode ter esse volume com aviões grandes. Temos de desviar o excedente para Cumbica (Guarulhos) e Viracopos (Campinas)', disse Serra. A médio e longo prazos, Serra cogita na criação de aeroportos alternativos ou na ampliação de Cumbica e Viracopos. O governador também falou que a Polícia Civil (PC) e o Ministério Público Estadual (MPE)iniciaram uma investigação criminal para verificar a natureza do acidente que poderá ser tratado como'homicídio culposo' (sem intenção).
O tucano lamentou que umas das principais provas para se chegar ao motivo do acidente está prejudicada. 'Eu creio que no momento não há elementos que permitam a identificação das causas do acidente. O próprio filme que foi feito do pouso do avião está dividido em três partes e não permite uma análise rigorosa', disse Serra.
Pouco depois apareceu o prefeito Gilberto Kassab (DEM). Ele propõe as mesmas soluções de pequeno e médio prazos defendidas pelo tucano. 'É evidente que já chegou a hora de um basta, está na hora de o Brasil cobrar dos responsáveis uma solução definitiva para o problema do nosso sistema aeroportuário', disse Kassab.
Ao ser perguntado que nota daria de 0 a 10 para os aeroportos do País, o prefeito se esquivou: 'Tenho confiança no sistema.'
R$ 4 bi e Congonhas fecha
Esse seria o preço para desativar aeroporto na Capital
O fim das operações no Aeroporto de Congonhas custaria R$ 4 bilhões ao País, segundo cálculos da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Transporte Aéreo (SBTA).
Anderson Ribeiro Correia, professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e presidente da SBTA afirmou que esse seria o valor necessário apenas para dotar o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, e o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, de condições para receber o fluxo de passageiros de Congonhas.
'O valor seria suficiente para a construção da terceira pista e o terceiro terminal em Guarulhos e a adequação de Viracopos, que possui uma pista subutilizada, mas que necessita de capacidade para acomodar os passageiros', explica o pesquisador. A falta de um planejamento de longo prazo torna hoje essa possibilidade inviável. Congonhas opera há anos além dos limites. Já alcançou a marca de 48 pousos e decolagens por hora e continua atraindo mais e mais passageiros todos os anos.
Congonhas opera sob uma regulação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que estimula a superexploração da estrutura. 'Não há mudança regulatória que crie tarifas diferenciadas. Dessa forma, todas preferem Congonhas, o filé do negócio', diz Correia.
Segundo o especialista em transporte aéreo Gilson Garófalo, o fluxo médio diário de 50 mil pessoas em Congonhas gera duas conseqüências: eleva o desconforto e o risco para os passageiros ao mesmo tempo que multiplica os ganhos de companhias aéreas . 'Congonhas é um exemplo de algo que opera no limite, sem ter mais condições para isso', diz Garófalo.
GILBERTO AMENDOLA, Jornal da Tarde - quinta-feira, 19 de julho de 2007
Postos de gasolina não derrubam aviões, mas a presença de nove deles a menos de 1 km da cabeceira da pista do Aeroporto de Congonhas, nas Avenidas Washington Luís, Rubem Berta e Bandeirantes, é um sinal de que há algo errado por lá. Logo após a tragédia de anteontem, urbanistas acirraram o debate sobre um difícil dilema: ou a Cidade desiste de 'engolir' o aeroporto ou o aeroporto 'desiste' da Cidade. Quem vai desistir primeiro?
Na foto do dia 12 de abril de 1936, data do início das operações do Aeroporto de Congonhas, não se vê quase nada. A Cidade tinha apenas 1 milhão de habitantes - e áreas como essa eram praticamente desabitadas. Incrível que, em 71 anos, aquele mesmo descampado tenha se transformado no que é hoje. 'É uma tragédia travestida de modernização. Todos são culpados: Infraero, companhias aéreas, passageiros, governos...', desabafa Regina Monteiro, diretora da Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) e conselheira da ONG Defenda São Paulo.
Ainda com as imagens da tragédia na cabeça, o urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano, acredita que a Cidade vai precisar pensar em um 'desadensamento' populacional. 'A comparação pode não ser a mais adequada, mas, da mesma forma que as pessoas estão sendo retiradas das áreas de mananciais, elas precisariam ser tiradas das proximidades do aeroporto', afirmou.
Kazuo ainda toca em outra ferida. 'Acidentes como esse mostram que nós falhamos. São Paulo está envelhecendo e a manutenção dos nossos equipamentos públicos deixa muito a desejar.' O urbanista compara a cratera do Metrô (de janeiro) com o acidente de ontem. 'Os dois mostram um tipo de falência, uma falta de cuidado com a Cidade. Um descuido que sempre termina em tragédia.'
Também do Instituto Pólis, o urbanista Renato Cymbalista acredita que Congonhas precisa ser repensado. 'Pela sua localização, ele não tem vocação para receber grandes aeronaves. Ele deveria receber aviões menores, como acontece em muitos aeroportos do interior de São Paulo.'
Nenhum dos urbanistas ouvidos é a favor da desativação de Congonhas. Razões econômicas, culturais e de logística segurariam o aeroporto em Moema. Ainda assim, segundo os urbanistas, seu 'gigantismo' precisa ser freado - assim como o crescimento em torno dele. 'A Cidade precisa de um aeroporto, mas não do jeito que está hoje. Vivemos em uma situação de alto risco', disse Kazuo.
Mas, depois de um acidente como o de anteontem, é possível acreditar na solução desse dilema envolvendo o crescimento do aeroporto e o avanço da Cidade sobre ele? Regina Monteiro, diretora da Emurb é lacônica: 'Não.'
Serra defende a redução dos vôos
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB) afirmou, ontem à tarde, que vai pedir a redução do volume de vôos no Aeroporto de Congonhas. Durante vistoria aos trabalhos de resgate, ele classificou o aeroporto de 'inadequado' para a Cidade por conta de sua localização perto de bairros populosos.
'Num curto prazo precisamos adequar o tráfego aéreo de Congonhas à sua capacidade real. Não pode ter esse volume com aviões grandes. Temos de desviar o excedente para Cumbica (Guarulhos) e Viracopos (Campinas)', disse Serra. A médio e longo prazos, Serra cogita na criação de aeroportos alternativos ou na ampliação de Cumbica e Viracopos. O governador também falou que a Polícia Civil (PC) e o Ministério Público Estadual (MPE)iniciaram uma investigação criminal para verificar a natureza do acidente que poderá ser tratado como'homicídio culposo' (sem intenção).
O tucano lamentou que umas das principais provas para se chegar ao motivo do acidente está prejudicada. 'Eu creio que no momento não há elementos que permitam a identificação das causas do acidente. O próprio filme que foi feito do pouso do avião está dividido em três partes e não permite uma análise rigorosa', disse Serra.
Pouco depois apareceu o prefeito Gilberto Kassab (DEM). Ele propõe as mesmas soluções de pequeno e médio prazos defendidas pelo tucano. 'É evidente que já chegou a hora de um basta, está na hora de o Brasil cobrar dos responsáveis uma solução definitiva para o problema do nosso sistema aeroportuário', disse Kassab.
Ao ser perguntado que nota daria de 0 a 10 para os aeroportos do País, o prefeito se esquivou: 'Tenho confiança no sistema.'
R$ 4 bi e Congonhas fecha
Esse seria o preço para desativar aeroporto na Capital
O fim das operações no Aeroporto de Congonhas custaria R$ 4 bilhões ao País, segundo cálculos da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Transporte Aéreo (SBTA).
Anderson Ribeiro Correia, professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e presidente da SBTA afirmou que esse seria o valor necessário apenas para dotar o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, e o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, de condições para receber o fluxo de passageiros de Congonhas.
'O valor seria suficiente para a construção da terceira pista e o terceiro terminal em Guarulhos e a adequação de Viracopos, que possui uma pista subutilizada, mas que necessita de capacidade para acomodar os passageiros', explica o pesquisador. A falta de um planejamento de longo prazo torna hoje essa possibilidade inviável. Congonhas opera há anos além dos limites. Já alcançou a marca de 48 pousos e decolagens por hora e continua atraindo mais e mais passageiros todos os anos.
Congonhas opera sob uma regulação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que estimula a superexploração da estrutura. 'Não há mudança regulatória que crie tarifas diferenciadas. Dessa forma, todas preferem Congonhas, o filé do negócio', diz Correia.
Segundo o especialista em transporte aéreo Gilson Garófalo, o fluxo médio diário de 50 mil pessoas em Congonhas gera duas conseqüências: eleva o desconforto e o risco para os passageiros ao mesmo tempo que multiplica os ganhos de companhias aéreas . 'Congonhas é um exemplo de algo que opera no limite, sem ter mais condições para isso', diz Garófalo.




