Transporte Público

Mobilidade urbana na Copa do Mundo
Autor(es): Claudio Ribeiro Lucinda Professor da FGV-EESP

Os brasileiros que trafegam pelas avenidas das grandes capitais brasileiras atestam que a mobilidade é cada vez mais difícil. A Copa 2014 está cada vez mais próxima e deve trazer milhares de turistas ao país. Como a infraestrutura urbana vai acomodar os visitantes e permitir que eles consigam aproveitar sua estadia durante o evento?

Para entender a magnitude do problema, é necessário ter em mente que o estado atual do transporte público urbano é resultado de vários fatores e de anos de decisões equivocadas. O alcance das metas para o setor depende do entendimento destes fatores e de ações precisas para minimizar o transtorno causado pelo trânsito caótico nas capitais.

O transporte coletivo vem perdendo importância em relação ao transporte individual. Nos últimos anos, a quantidade de usuários de meios coletivos tem crescido. Mas o ritmo não é suficiente para combater a preferência do brasileiro pelo deslocamento individual. a figura mostra o aumento na utilização de transporte individual em detrimento do transporte coletivo:

O segundo ponto importante na caracterização da mobilidade urbana é o elevado grau de informalidade existente, em especial no segmento de ônibus e vans. Por um lado, os operadores informais exercem pressão competitiva no mercado e atendem nichos pouco explorados. Por outro, reduzem o espaço do poder público na regulação do setor de transportes.

Não bastasse a dificuldade de regulação causada pela informalidade, o próprio marco institucional do setor apresenta dificuldades, tanto do ponto de vista legal - em termos de adequação à lei de concessões - como do ponto de vista de coordenação entre as diferentes instâncias regulatórias. Mesmo dentro dos municípios, há dificuldades em pensar de forma integrada no conjunto de serviços disponíveis (metrô, trens urbanos e ônibus).Entre municípios diferentes, mas pertencentes às mesmas regiões metropolitanas, o problema se repete.

Todos estes fatores trazem consequências sobre a oferta dos serviços. Além deles, o volume de investimentos aportados no setor é menor do que o necessário, o que tem empurrado os cidadãos em direção ao transporte individual. também é baixo o capital direcionado à tecnologia e inovação, trazendo impacto relevante na qualidade do serviço entregue ao usuário.

Mesmo que a resolução definitiva destes problemas demande um período muito maior do que o existente até o início da Copa do Mundo, parte deles precisa ser enfrentada. Dos dois caminhos mais comuns neste sentido - a operação direta pelo setor público ou a operação pelo setor privado sujeita à regulação - a última é a que mais está de acordo com o ambiente legal existente.

Em especial, a competição regulada começa com o uso de licitações com base em critérios técnicos, sendo que o resultado delas faz com que o direito de operação do serviço seja concedido por tempo determinado. Além da pressão natural decorrente da possibilidade da concessão não ser renovada, dentro do próprio contrato de licitação costumam existir mecanismos de incentivos e penalidades para o operador.

Dentro deste instrumento, há uma divisão clara de tarefas. O operador se responsabiliza pela oferta de serviços, respondendo pela quantidade e qualidade. Já os parâmetros de qualidade dos serviços e de coordenação entre as redes são de responsabilidade do poder concedente.

Para que o sistema seja eficaz, é necessário que a autoridade pública se encarregue de importantes tarefas técnicas. Elas incluem o desenho de licitações, a coordenação de rede e a determinação dos parâmetros de qualidade.

Neste cenário, é preciso enfrentar o problema da coordenação entre as diferentes redes de transporte urbano, desenhando licitações por áreas geográficas com foco na redução dos custos de coordenação envolvidos. Mesmo que ainda não haja um plano integrado de gestão de redes, este é o primeiro passo na direção certa.

mail

Além disso, as ações regulatórias mais recentes buscam incorporar o segmento atendido pelos operadores informais. Este passo permite a integração deles às eventuais soluções de redes urbanas. Com relação aos operadores já instalados, a tendência é que haja mais liberdade de ação, permitida pelo poder público, combinada com um novo desenho de alocação de riscos de demanda entre o poder concedente e o operador.

Finalmente, existe intenção de incorporar novidades tecnológicas na operação do sistema, como o bilhete único. Tais medidas aparentemente têm vindo mais do lado do poder público do que dos operadores, que ainda restringem fortemente seus investimentos neste sentido.

Outro ponto que deve ser considerado é o fato de que grande parte dos investimentos em infraestrutura, cujos objetivos estão centrados na melhoria da mobilidade urbana, inclui obras viárias. Neste sentido, o tráfego adicional gerado pelo turismo durante a Copa tende a utilizar o modal mais predominante nas cidades brasileiras: o transporte individual, principalmente na forma de maior número de viagens de automóveis.

Tais problemas tendem a ser ainda mais graves se, nos próximos anos, observarmos uma retomada do crescimento econômico como o experimentado em 2007 e 2008. se a desaceleração econômica deste ano se reverter e o crescimento do PIB retornar à faixa de 4% a 6% ao ano, a mobilidade urbana (transporte coletivo e individual) piorará bastante.

É claro que alguns destes problemas não serão resolvidos completamente até o início da Copa 2014, mas ainda há tempo unindo investimentos planejados com uma reorganização do marco regulatório do setor de evitarmos que os milhares de turistas quer devem chegar ao Brasil gastem mais tempo no deslocamento para os estádios do que dentro deles. se conseguirmos isto, a melhora no padrão de mobilidade urbana gerará benefícios maiores ou iguais aos dos novos e reformados estádios que herdaremos do evento.


Lula assina em janeiro pacote de R$ 8 bi para mobilidade urbana
Leila Melo, de Brasília

mail
Autoridades do MTur e Embratur participam da última reunião do ano do CNT

Agora está fechado. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, assina no início de janeiro de 2010 um pacote de investimentos com vistas a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. "Serão disponibilizados R$ 8 bilhões nas áreas de infraestrutura e mobilidade para as 12 cidades sede da Copa do Mundo de 2014. Para as arenas esportivas, especificamente, será ratificado um outro acordo com o BNDES no valor de R$ 4,8 bilhões", anuncia o ministro do Turismo, Luiz Barretto, na abertura do 27ª reunião do Conselho Nacional de Turismo, que acontece hoje (08/12), em Brasília. Essa é o último encontro de 2009 do CNT. A assinatura deve acontecer, segundo Barretto, em 15 de janeiro, em Brasília. O setor de hotelaria também será contemplado com recursos do BNDES, no entanto, o valor ainda não foi definido. A estimativa do ministro é que o montante chegue a R$ 1 bilhão. "Quando confirmado, o recurso será aplicado para a reforma, modernização e expansão de todo o parque hoteleiro brasileiro", adianta o ministro, mencionando ainda que os fundos constitucionais do Nordeste, Norte e Centro-Oeste irão apresentar linhas de empréstimos especiais para a hotelaria nacional. "Serão oferecidas prazos de pagamento maiores e com juros mais acessíveis", completa Luiz Barretto. O planejamento do governo federal para os próximos cinco anos também incluirá intervenções no setor aeroportuário. Em outubro desse ano, o país registrou um aumento de 40% nos desembarques domésticos em relação ao mesmo período de 2008 e a estimativa é que o Brasil alcance a marca de 55 milhões de passageiros em desembarques nos aeroportos nacionais. "Nosso desafio aeroportuário é grande, mas já está em andamento a mudança da legislação que eleva de 20% para 49% a participação de capital estrangeiro na aviação comercial. Isso aumentará nossa competitividade diante do mercado mundial", diz o ministro. A previsão, de acordo com Barretto, é que até o primeiro trimestre de 2010 todo esse plano de investimentos esteja consolidado e sejam iniciadas das obras mais importantes. Junto com o lançamento desse pacote, o presidente firmará um termo de responsabilidade em que garantirá a transparência e o acompanhamento das obras planejadas. "A próxima década será especial para o país, principalmente para o turismo. A economia brasileira cresce de forma sustentável - em 2010 a expectativa é incrementar esse número em 6% - e isso nos motivará a superar nossos gargalos. O país também é visto com bons olhos no mercado internacional, o que nos permitirá potencializar novos investimentos", comenta Luiz Barretto.