12horas de voo = 50 anos carro

Para voar sem culpa

Um vôo transatlântico de 12 horas polui tanto quanto um carro durante 50 anos. Agora, a aviação precisa mudar para reduzir seu impacto ambiental

CRISTINA CHARÃO 18/06/2009 - Revista Época
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O FLUXO DE AR pelo cone elimina o ar turbulento na parte traseira da fuselagem do avião
Enquanto espera pela chamada de seu vôo, o passageiro na sala de embarque geralmente pensa se o avião vai atrasar, se a poltrona é confortável, se o céu estará turbulento ou até se sua bagagem não será perdida. A única coisa que não vai passar pela cabeça do passageiro, com bilhete de embarque na mão, é "quanto esta viagem vai custar para a natureza?". Pois ela certamente terá um preço alto. Apesar dos avanços alcançados pela engenharia aeronáutica nas últimas décadas, os motores dos jatos continuam consumindo uma quantidade imensa de querosene. E lançando na atmosfera milhares de toneladas de poluentes. Num único vôo transatlântico, de Londres a Nova York, um avião gasta 60 mil litros de combustível, o equivalente ao uso de um automóvel por 50 anos. Isso gera 140 toneladas de gás carbônico, o principal responsável pelo aquecimento do planeta. O avião produz, ainda, 750 quilos de outro gás, o óxido de nitrogênio. Despejado a 10 mil metros de altitude, ele provoca reações químicas na atmosfera que também ajudam a esquentar a Terra.
A eficiência dos aviões aumenta 2% ao ano.
O número de passageiros cresce mais rápido: 5%
É verdade que os aviões de hoje são 40% mais eficientes no consumo de combustível que os modelos fabricados na década de 60. Os avanços conseguidos até agora ocorreram graças à melhor aerodinâmica e a ganhos de desempenho nas turbinas. "Os engenheiros também desenvolveram materiais mais leves para a fuselagem", diz Ênio Dexheimer, pesquisador da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC-RS. O nível de eficiência das aeronaves no gasto de combustível melhora cerca de 2% ao ano. É um número bom, mas não suficiente. O número de passageiros cresce 5% ao ano. Hoje, cerca de 85 mil vôos comerciais decolam todos os dias. Esse número deve dobrar até 2050. Os aviões terão de passar por saltos de eficiência para compensar o crescimento na demanda. Só assim será possível reduzir as emissões de gases do efeito estufa sem causar danos econômicos. Para tornar positivo o balanço ambiental da aviação, especialistas ao redor do mundo dizem que será preciso adotar medidas radicais. O quadro ao lado resume algumas das idéias que circulam entre engenheiros, cientistas e diretores de empresas. Algumas medidas são compensatórias, como plantar árvores para capturar parte do carbono lançado na atmosfera. Outras simplesmente tentam inibir o uso dos aviões, como criar impostos sobre as emissões de gases das empresas aéreas. Nada disso vai eliminar a necessidade de viagens aéreas em uma economia cada vez mais globalizada. A maior parte dos avanços terá de sair dos computadores dos projetistas de aviões. Algumas das idéias pesquisadas parecem futuristas demais. Elas mostram, porém, o tamanho da mudança que a aviação precisa atravessar para se tornar ecologicamente correta.

O que os pesquisadores sugerem para reduzir o impacto ambiental dos aviões


O ar que corre próximo à asa, à fuselagem e às turbinas - chamado fluxo laminar - pode formar pequenos redemoinhos, ou turbilhões. Isso causa um efeito chamado "arrasto", que aumenta o consumo de combustível. Engenheiros propõem que as asas do avião sejam cobertas por pequenos furos. Eles sugariam o ar, regularizando o fluxo e eliminando essas turbulências
OITO MANEIRAS DE DEIXAR O CÉU MAIS LIMPO
CONTROLE DO AR NAS ASAS
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CAUDA CÔNICA
Baseados num projeto da década de 60, idealizado para submarinos, engenheiros propõem a adição de uma estrutura em forma de cone à cauda. Entre ela e o corpo do avião, haveria uma fenda equipada com um ventilador para sugar o ar
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ASAS COM SUPORTES
No lugar das asas tradicionais, o avião teria estruturas de sustentação, que diminuem o peso da asa - e também o da aeronave - em até 25%. Isso permite motores menos potentes, portanto, menos poluentes
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AVIÃO-MORCEGO
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Uma proposta apresentada pelo consórcio Silent Aircraft Initiative acaba com o formato tubular das aeronaves e propõe que cabine e asas formem um só módulo achatado. A idéia inicial era reduzir o barulho das aeronaves. O design mostrou-se também mais econômico
Economia de combustível: mais de 25% Problema: serão necessários investimentos de cerca de US$ 15 bilhões e uma década de testes para desenvolver um avião comercial


Criar taxas baseadas na emissão de gases causadores do efeito estufa poderia incentivar as companhias a ser mais cuidadosas. A União Européia propôs que um imposto assim seja cobrado a partir de 2011. A proposta é contestada pelas empresas aéreas

É uma idéia óbvia, mas há dificuldades técnicas. Tanto o hidrogênio quanto o álcool exigiriam tanques maiores, pois são menos eficientes que o querosene para gerar energia. Isso iria requerer um volume maior de combustível para colocar um avião no ar. E o álcool ainda congela na altitude

Várias companhias européias oferecem aos passageiros a adição de uma pequena taxa para programas de reflorestamento, que compensariam a emissão de gás carbônico. De acordo com ambientalistas, essa compensação é imprecisa

A Associação de Transporte Aéreo Internacional estima que mais eficiência no controle do tráfego aéreo diminuiria a emissão de gás carbônico em 12%. Isso porque os aviões passariam menos tempo esperando para pousar, além de diminuir o tempo que ficam com os motores ligados
Ações imediatas
Aumentar o controle sobre a emissão de gás carbônico
Eliminar combustíveis à base de petróleo
Compensar as emissões
Melhorar o controle de tráfego aéreo